A PROPOSTA DO “SAMU DA PROTEÇÃO SOCIAL”: A AGÊNCIA QUE O BRASIL NÃO TEM
- Wagner Soares de Lima

- 10 de fev.
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Wagner Soares de Lima
Quando a gente fala de segurança pública, a maioria das pessoas imagina o momento do enfrentamento. Mas esse não é o começo e nem o fim do ciclo. A parte mais importante está nas pontas: a prevenção primária, que antecede a violência, e a prevenção terciária, que reorganiza o território depois do conflito. O Brasil até sabe fazer enfrentamento, mas nunca soube estruturar o dia seguinte.

E há um motivo muito simples: a polícia convencional não pode assumir essa função. Não por falta de vontade individual, mas porque a estrutura foi feita para outra finalidade. Os moldes militares, a lógica de combate, a cultura da prontidão e do confronto moldam o tipo de ação possível. São instituições importantes, necessárias, mas não são, e nunca foram, instituições de proteção social.
O que eu proponho é uma mudança de paradigma. Não é “polícia comunitária”, no velho sentido. É outra coisa. Eu costumo brincar dizendo que não seria “polícia”, e sim algo como “PLIS”: polis de cidade, agentes urbanos voltados à vida cotidiana, às relações, à convivência. Pessoas preparadas para orientar, mediar, construir vínculos. Esse tipo de trabalho exige outro etos, outra formação e outra missão institucional.
Quando a gente observa o que aconteceu no Reino Unido, especialmente com reformas profundas das polícias britânicas, fica claro que é possível mudar ethos, vocação e missão. Em alguns lugares da Europa, Portugal, França, Espanha, Itália, surgiram guardas e gendarmarias com funções híbridas.
Mas o ponto central é que essas instituições foram cuidadosamente reconstruídas para lidar com o dia a dia das comunidades.No Brasil, isso nunca aconteceu. A gente manteve uma tradição histórica militarizada, tanto nas polícias quanto nas guardas municipais, que herdaram a lógica das antigas ordenanças e tropas de segunda linha. Nada disso serve para o tipo de prevenção que estou descrevendo.
Por isso uso a metáfora do SAMU. Uma época, todo mundo achava que apenas o Corpo de Bombeiros era capaz de fazer resgate. Hoje, ninguém questiona que o SAMU é quem realmente opera a urgência civil. O SAMU ensinou ao Brasil que é possível criar uma nova instituição, com nova formação, novas equipes e novo etos, voltada para um tipo de missão que antes ninguém conseguia executar.A proteção social precisa de algo equivalente.
E que tipo de profissional compõe essa agência?Não é policial. Não é bacharel em Direito. É outro perfil.Os pilares seriam psicologia, serviço social e pedagogia, especialmente pedagogia com formação psicopedagógica. Profissionais capazes de entender família, vínculo, desenvolvimento, conflito cotidiano, dinâmica comunitária e sofrimento social.Também cabem ali profissionais da saúde formados em saúde pública, que entendem vigilância, fatores de risco e prevenção. E ainda há espaço para humanidades: filosofia, antropologia, artes. A lógica é interdisciplinar.
E existe um espaço especial para o que eu chamo de capelania comunitária. Não uma religião oficial do Estado, mas uma presença espiritual organizada, vinda da sociedade civil: lideranças de matriz africana, pastores, padres, espíritas, agentes de comunidades tradicionais. Esse suporte é fundamental porque a violência no Brasil também é emocional, simbólica e espiritual. A comunidade precisa de referências.
Mas, para essa agência funcionar, ela precisa estar em algum lugar dentro da estrutura do Estado. E esse lugar certamente não é a Secretaria de Segurança Pública. Isso mataria o projeto na origem. Essa agência poderia estar vinculada à saúde, especialmente à vigilância de violências e acidentes, ou poderia compor uma Secretaria de Defesa Social ampliada. Também poderia ser articulada pela assistência social. O importante é que o etos seja civil, preventivo e comunitário. Não repressivo.
E como isso funciona na prática? Dentro do posto de saúde, por exemplo, uma simples estratégia de paternidade ativa já muda trajetórias inteiras. Imagine uma jovem de 17 ou 20 anos chegando para iniciar o pré-natal. E a equipe diz: “Seu companheiro precisa vir junto para agilizar o exame e garantir o atendimento imediato”. Isso não é punição. É responsabilização afetiva. Aos poucos, você resgata a presença paterna, a corresponsabilidade e a noção de projeto de vida.
Dentro da escola, a lógica é parecida. A disciplina de educação física não dá conta dos meninos mais ativos, aqueles que têm espírito aventureiro, energia transbordando e sede de risco. Esses meninos, que poderiam ser atletas, bombeiros, policiais, líderes comunitários, acabam sendo cooptados pelo tráfico porque o tráfico oferece o que o Estado não oferece: status, visibilidade, pertencimento e adrenalina.Projetos esportivos, artes marciais, escotismo e atividades orientadas por treinadores experientes são capazes de redirecionar esses meninos antes do recrutamento criminoso.
O que estou dizendo é simples: existe um ecossistema de prevenção que não é da polícia, não é da escola isolada, não é da saúde isolada. É do conjunto. E falta ao Brasil uma instituição capaz de organizar esse conjunto, entrar nos territórios após grandes operações, reconstruir vínculos e oferecer alternativas reais ao cotidiano.
Essa é a Agência de Proteção Social.O “SAMU da proteção social”.
A instituição que o Brasil ainda não criou.





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