A Primeira Vez em Brasília
- Wagner Soares de Lima

- 4 de dez. de 2025
- 7 min de leitura
A Cidade Monumental, o Senado e o Sonho que Acompanha Minha Vida

Uma fotografia nunca é apenas uma fotografia; ela captura o instante e, ao mesmo tempo, aquilo que o instante convoca. Nas imagens que fiz em Brasília, durante minha primeira visita à capital, aparece meu rosto, o céu seco do cerrado e as linhas ousadas de Niemeyer. Mas, para além disso, aparece algo que me acompanha desde menino: o sonho de um dia ocupar uma daquelas cadeiras azuis do Senado Federal.
A Cidade Monumental
A sensação de caminhar por Brasília, a grande BSB, é quase a de adentrar um sonho arquitetônico que decidiu existir de verdade. Sempre ouvi dizer que a cidade era organizada, planejada, diferente de todas as outras. Só entendemos plenamente quando pisamos ali. A monumentalidade não é apenas estética; é uma experiência sensorial. Os espaços respiram largamente, as avenidas se estendem como se fossem feitas para o vento circular, não para o trânsito travar, e cada prédio parece ter sido desenhado para dialogar com o céu.
Eu reconheci de imediato aqueles traços. Já morei em Delmiro Gouveia, no sertão alagoano, região marcada pela presença da CHESF, que ergueu cidades planejadas para sustentar projetos hidrelétricos no São Francisco. Estudei Ecologia Humana em Paulo Afonso, cidade que respira o concreto e a história energética do país. Trabalhei como policial militar em Xingó, convivendo diariamente com ambientes urbanos criados artificialmente, mas que, ainda assim, ganharam vida própria: crianças brincando em praças amplas demais, pássaros ocupando espaços que não foram pensados para eles, famílias caminhando nos finais de tarde entre ruas que só existem porque engenheiros imaginaram que deveriam existir.
Brasília é, nesse sentido, a irmã mais velha de todas elas; a matriz de um certo imaginário de cidade que não nasce do caos, mas do caderno de um urbanista. A região central da maioria das cidades da Fronteira Agrícola Oeste são assim, a exemplo de Vilhena em Rondônia e Sinop em Mato Grosso. E, ainda assim, mesmo em sua artificialidade evidente, a vida insiste em emergir em BSB: pássaros que cruzam os estacionamentos, árvores que se estendem sobre calçadas largas, sons de riso e conversa entre prédios de concreto branco. A natureza, mesmo quando não está convidada, encontra um modo de entrar.
Senado e o Sonho que Acompanha Minha Vida
No entanto, o ponto mais marcante da minha visita não foi o urbanismo, e sim o plenário do Senado. Eu cresci assistindo à TV Senado, algo que eu mesmo reconheço como incomum para uma criança. Enquanto muitos memorizavam nomes de jogadores ou personagens de desenhos, eu prestava atenção em discursos alongados, debates regimentais, votações simbólicas. Havia, para mim, uma dignidade misteriosa naquele lugar. A palavra Senado sempre me evocou algo ancestral, como se fosse o eco moderno daqueles conselhos de anciãos que existiram em quase todas as sociedades humanas. A versão republicana do que, um dia, foram os seniores, os homens de mais idade, responsáveis por ponderar, equilibrar, aconselhar.
É claro que, com o passar do tempo, minha visão se tornou mais complexa. Eu cresci, estudei, trabalhei, enfrentei dificuldades e trilhei caminhos que nunca passaram diretamente pela política institucional. Por isso, sei que meu sonho infantil; sentar-me ali como senador é improvável. A vida cria desvios, as vocações se multiplicam, e nem sempre os sonhos ganham o corpo que imaginamos. Hoje, realisticamente, eu ficaria profundamente feliz se pudesse assessorá-lo. Contribuir com ideias, produzir análises, trabalhar por políticas públicas fundamentadas, servir ao país de alguma forma naquele espaço. Mas, ainda assim, o coração não se desfaz do desejo original. Sonhos não são obrigados a ser realistas para serem verdadeiros.
Se há algo que essa visita me ensinou, foi isto: não é errado manter um sonho, mesmo que a vida tenha seguido por caminhos diferentes. Sonhos antigos são bússolas silenciosas; não nos garantem o destino, mas nos lembram quem somos. Quando me vi diante das cadeiras azuis, senti gratidão por nunca ter desistido daquela parte de mim que acredita que instituições fortes importam, que o debate público é essencial, que o Senado tem um papel civilizatório no país. Não acredito na visão caricatural de que o Congresso é a origem de todas as corrupções; acredito, ao contrário, que ele reflete a nação com suas virtudes e seus vícios. E, como qualquer parlamento do mundo, está sempre em disputa: ética, política, simbólica.
Talvez haja nisso tudo um traço aristocrático, admito. Eu nunca me apaixonei pela “casa do povo”, no sentido popular da Câmara, com sua pluralidade ruidosa. Meu fascínio sempre foi pela casa menor, mais austera, mais lenta e mais reflexiva. A casa dos senadores. A ideia de que ali, entre discursos longos, rituais regimentais e votações silenciosas, se exerce um tipo de sabedoria que, embora imperfeita, ainda acredito necessária. Talvez seja influência do que li sobre Roma; talvez seja apenas afinidade pessoal. Talvez seja, no fundo, a crença de que o país também precisa de espaços de maturidade política, onde a pressa não substitua a prudência.
Jogos de Poder e o Conselho de Anciães
Há também um motivo curioso pelo qual sempre fui atraído pela ideia de parlamentos. Desde jovem, além de assistir à TV Senado com um fascínio quase indecifrável, eu também me interessava pelas séries políticas que mostram os bastidores do poder. Cada país tem seu modo próprio de dramatizar sua vida institucional: o ritmo seco do Parlamento dinamarquês em Borgen, os jogos de força e ambição do Congresso norte-americano em House of Cards, ou a teatralidade calculada que aparece em tantas produções sobre o Bundestag alemão. Em comum, essas histórias revelam que toda democracia madura convive com disputas, estratégias, alianças e tensões e que isso não invalida a importância de suas instituições; ao contrário, confirma-a.
Talvez por isso eu nunca tenha idealizado o Senado como um lugar de pureza, mas como um espaço de humanidade política. O que me fascina não é a ausência de conflito, mas o compromisso de lidar com ele por meio de regras, rituais e debates públicos. E, mesmo sabendo que essa visão pode soar aristocrática, continuo acreditando que existe valor na existência de uma casa legislativa mais lenta, mais ponderada, mais comprometida com a memória nacional e com a profundidade das decisões. Em todas as sociedades, do conselho de anciãos descrito pela antropologia aos parlamentos contemporâneos analisados pela ciência política, há sempre a necessidade de um espaço de reflexão mais pausada, onde o tempo não é inimigo, mas ferramenta.
Desde muito antes das cidades, antes mesmo da agricultura fixar aldeias no solo, as sociedades humanas já distinguiam dois papéis fundamentais no governo da vida coletiva: o vigor do líder e a experiência do conselho. Em quase todas as etnografias clássicas, desde os pastores nilóticos até os horticultores amazônicos, aparece uma estrutura recorrente: o chefe jovem, carismático, capaz de mobilizar o grupo em tempos de guerra ou deslocamento; e, ao lado dele, o círculo dos mais velhos, responsáveis por lembrar o que o tempo ensinou. Ecologicamente, essa divisão não é um acidente cultural, mas uma solução humana para lidar com a imprevisibilidade do mundo. O líder conduz, mas os anciãos ponderam; o jovem arrisca, mas o velho mede consequências; o presente avança, mas o passado o orienta.
Esses conselhos de anciãos existiam não por tradição vazia, mas porque eram depositários de memória ecológica, de narrativas sobre cheias e secas, sobre doenças e colheitas, sobre conflitos e reconciliações. Eram homens que já tinham visto vidas nascerem e partirem, que já haviam experimentado perdas suficientes para compreender a gravidade das decisões. Em muitas sociedades, a barba longa tornava-se símbolo desse acúmulo de tempo: uma marca visível de que aquele corpo já atravessou estações demais para ser precipitado. Quando pensamos hoje em instituições como o Senado, com sua função de revisão, cautela e maturidade política, estamos, de certo modo, tocando essa herança profunda da espécie: a necessidade humana de equilibrar o ímpeto da juventude com a prudência da idade, para que o grupo não se destrua nos próprios excessos.
Brasília: “ainda volto”
Saí de Brasília com a sensação de que algo se deslocou em mim. Não apenas porque conheci uma cidade bonita e monumental, mas porque, pela primeira vez, aquele sonho antigo encontrou chão. Ele não é mais apenas imaginação infantil. Ele se tornou um horizonte possível; distante, sim, mas possível.
E, mesmo que eu nunca me sente numa daquelas cadeiras, continuo acreditando que posso servir ao país de formas que ainda nem descobri. Brasília não apagou minha ingenuidade; ela a reorganizou. Tornou-a adulta, mas não a extinguiu.
E talvez seja isso, o que faz a vida valer a pena. Ter sonhos que permanecem, ainda que mudem de forma. Sonhar sabendo que é improvável. Sonhar sabendo que é difícil. E, ainda assim, sonhar.
Referências
Ab'Sáber, A. (2003). Os domínios de natureza no Brasil. São Paulo: Ateliê Editorial.
Albuquerque, M., & Andrade, E. (2012). Xingó: Hidrelétrica, cidade e modernização no sertão. Aracaju: UFS Press.
Bachelard, G. (1994). A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes.
Barros, M. de. (2010). O Congresso Nacional e sua evolução histórico-política. Brasília: Senado Federal.
Bruand, Y. (1999). Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva.
Costa, L. (1991). Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes.
Eliade, M. (1957). The sacred and the profane. New York: Harcourt.
Evans-Pritchard, E. E. (1940). The Nuer. Oxford: Clarendon Press.
Fortes, M., & Evans-Pritchard, E. E. (1940). African political systems. London: Oxford University Press.
Freud, S. (1921). Psychology of groups and the analysis of the ego. London: Hogarth Press.
Gasparini, D. (2011). O Senado Romano: História e legado político. São Paulo: Alameda.
Holston, J. (1989). The modernist city: An anthropological critique of Brasília. Chicago: University of Chicago Press.
Lefebvre, H. (1991). The production of space. Oxford: Blackwell.
Magalhães, A. (2007). Cidades da energia: Urbanização e desenvolvimento regional no Vale do São Francisco. Recife: Editora Universitária UFPE.
Mezey, M. (1998). Comparative legislatures. Lanham: University Press of America.
Medeiros, C. (2004). Paulo Afonso: História, memória e identidade. Salvador: EDUFBA.
Niemeyer, O. (1998). As curvas do tempo: Memórias. Rio de Janeiro: Revan.
Ribeiro, J. F., & Walter, B. M. T. (2008). Fitofisionomias do bioma Cerrado. Brasília: Embrapa.
Rolnik, R. (2017). Guerra dos lugares: A colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo.
Sahlins, M. (2017). On kings. Chicago: Hau Books.
Senado Federal. (2014). O Senado do Brasil: História, evolução e memória institucional. Brasília: Senado Federal.
Wisnik, G. (2018). Dentro do nevoeiro: Arquitetura, arte e política. São Paulo: Ubu.






















Comentários