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Wagner Soares de Lima

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Reflexões sobre trabalho, vocação, instituições, afetos e as travessias invisíveis que moldam quem somos. Aqui, escrevo com escuta, compartilho ideias com alma e transformo vivências em pensamento — para quem busca sentido, recomeço ou apenas companhia lúcida no caminho.

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As Três Caixas d’Água e o Coração de Porto Velho

  • Foto do escritor: Wagner Soares de Lima
    Wagner Soares de Lima
  • 26 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura
Um ensaio sobre memória, pertencimento na capital onde o Brasil inteiro se mistura ao Madeira.

Há cidades que se reconhecem pela grandiosidade arquitetônica, pelo espetáculo das luzes, pelo peso da história registrada em pedra. E há cidades como Porto Velho, que se reconhecem por estruturas silenciosas, erguidas para cumprir uma função prática, mas que, por alguma alquimia do tempo e da memória coletiva, acabam se transformando em símbolo. As Três Caixas d’Água, no centro da capital de Rondônia, são um desses símbolos.

 

Elas não são monumentos, não foram construídas para ser cartões-postais, não possuem adornos nem narrativas programadas. São reservatórios metálicos sustentados por colunas de ferro, parte de um sistema de abastecimento que acompanhou o crescimento de um distrito às margens do rio Madeira. Ainda assim, é impossível pensar em Porto Velho sem a imagem dessas silhuetas recortadas no céu.

 

É curioso perceber como cidades criam, quase sem querer, seus próprios totens identitários. Em Porto Velho, eles nasceram junto com uma dessas histórias em que o Brasil tentou se conectar ao mundo. A Ferrovia Madeira-Mamoré, inaugurada em 1912, não foi apenas uma obra de engenharia; foi a tentativa de abrir uma rota continental que ligasse o Atlântico ao Pacífico, tornando a Amazônia um portal econômico. A ferrovia falhou em sua missão estratégica, mas seu traçado deixou marcas profundas na formação urbana, econômica e cultural da região. Onde antes havia um ponto de apoio para navegar o Madeira, surgiu uma cidade que se expandiria para se tornar capital de um novo estado.

 

Porto Velho, hoje, é uma capital amazônica diferente das demais. Com seus pouco mais de 550 mil habitantes espalhados por um município gigantesco, ela combina características de metrópole regional com o ritmo de cidade interiorana. É uma capital planejada, tranquila, de trânsito fluido, sem o caos urbano típico de muitos centros brasileiros. Ao mesmo tempo, precisa oferecer serviços, comércio e infraestrutura para dezenas de municípios menores que dependem dela. Esse paradoxo, pequena para si mesma, grande para os outros, é um dos traços mais marcantes da identidade porto-velhense.

 

Quem chega aqui vindo de fora, especialmente de regiões mais densamente povoadas, sente um alívio difícil de explicar. A cidade parece aberta, respirável, humana. O rio Madeira, com sua força e suas memórias, é mais do que uma paisagem; é um eixo simbólico. A presença boliviana, a chegada dos venezuelanos, os balneários escondidos, o “noiadense” que ecoa nas periferias, tudo compõe uma estética própria, fruto do encontro entre Amazônia profunda e fronteira agrícola em expansão.


 

A multietnicidade de Porto Velho não é um slogan; é a substância que molda a cidade desde seus primórdios. A formação do povo ribeirinho do Madeira nasce do encontro entre indígenas, quilombolas fugidos das frentes escravistas do século XVIII e XIX e lavradores que se estabeleceram às margens dos rios, criando uma cultura cabocla profundamente semelhante à que se vê nos distritos amazônicos do Amazonas, do Acre e mesmo nos vales do interior de Mato Grosso. Essa herança, visível nos distritos ribeirinhos da capital, constitui a raiz mais antiga da identidade local, marcada pelo conhecimento dos rios, pela pesca, pela agricultura de subsistência e por uma estética de vida moldada pela floresta.

 

Mas a cidade que se tornou capital e se expandiu ao longo do século XX assumiu outra dimensão: Porto Velho é, talvez, uma das capitais mais miscigenadas do país. Aqui há sobrenomes alemães e italianos que vieram do Paraná e do Espírito Santo, famílias inteiras de nordestinos (baianos, cearenses, pernambucanos, piauienses), além de uma forte presença de manauaras e paraenses. A chegada de bolivianos e venezuelanos trouxe novas camadas culturais, linguísticas e culinárias. O resultado é uma cidade em que mandioca, macaxeira e aipim coexistem sem conflito semântico; em que o tacacá encontra o baião de dois, o peixe amazônico dialoga com as técnicas do Sul, e a culinária brasileira inteira se expressa em pequenas variações regionais. Porto Velho é o raro lugar onde todos esses dialetos culturais são compreendidos sem esforço, porque todos esses povos estão aqui.

 

As festas reforçam essa pluralidade de maneira quase impressionante. O calendário porto-velhense abriga, simultaneamente, três grandes tradições nacionais: o carnaval do litoral brasileiro, o São João do Nordeste e a Expo, herdeira das exposições agropecuárias típicas do oeste do país. Não há hierarquia entre elas; todas convivem, todas são grandes, todas têm público, porque todas encontram eco nessa população múltipla. E mais surpreendente ainda é ver como, mesmo distante de Parintins, a cidade vive intensamente a cultura do boi-bumbá; aqui as pessoas se assumem caprichoso ou garantido com a mesma firmeza dos amazonenses.

 

A pluralidade se espalha até pelos times de futebol. A ausência de um grande time local fez com que cada morador adotasse o time da sua origem, criando uma paisagem de camisas que vai muito além dos clubes mais comuns do Brasil: Porto Velho é capaz de abrigar, no mesmo quarteirão, torcedores do Internacional, do Ceará, do Palmeiras, do São Paulo, do Flamengo e do Corinthians, todos convivendo como se fosse natural, porque aqui ser de vários lugares ao mesmo tempo não é exceção: é regra.

 

Esse caráter multietnico, migratório e afetivo faz de Porto Velho uma das cidades mais singulares do país. Não é apenas a capital de Rondônia; é o ponto de encontro de dezenas de histórias brasileiras, ribeirinhas, amazônicas, interiorescas, sertanejas, sulistas, nordestinas, andinas, todas coexistindo na mesma malha urbana. Talvez por isso Porto Velho carregue esse sentimento tão curioso de acolhimento: ao chegar aqui, ninguém é estrangeiro por muito tempo. A cidade está sempre preparada para compreender mais um sotaque.

 

Eu mesmo cheguei vindo do interior de Mato Grosso, atravessando estradas de lama para assumir meu cargo como professor federal no Instituto Federal. Porto Velho me recebeu com essa mistura de simplicidade e grandeza discreta. Encontrei uma cidade que poucos valorizam da maneira como deveria ser valorizada; encontrei um lugar que carrega histórias, ritmos, cheiros, cores, e sobretudo, uma calma rara nos tempos de hoje.

 

Por isso, quando volto às Três Caixas d’Água, não vejo apenas reservatórios. Vejo o marco fundacional de uma cidade que nasceu ousando ser mais do que aparentava. Vejo uma síntese do espírito porto-velhense: resistente, discreto, essencial. Vejo o símbolo de uma capital que se estende em território, se desdobra em responsabilidades regionais e se mantém fiel à sua vocação amazônica.

 

Porto Velho é uma cidade que não se exibe, mas se revela.E talvez seja por isso que, quando a gente aprende a enxergá-la, fica impossível não se apaixonar um pouco por ela.




 

 


 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1.       Benchimol, Samuel. Amazônia: Formação Social e Cultural. Manaus, 1999.

2.        Hardman, Francisco Foot. Trem Fantasma: A Ferrovia Madeira-Mamoré. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

3.        IBGE. Censo Demográfico 2022: Dados de Porto Velho. Rio de Janeiro, 2023.

4.        Lima, Jacob. Madeira-Mamoré: História, Mito e Imaginário. Porto Velho: EDUFRO, 2011.

5.        Prefeitura Municipal de Porto Velho. Dados Históricos e Urbanísticos. Secretaria Municipal de Planejamento, 2022.

6.        Santos, Milton. A Urbanização Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.

7.        Wagley, Charles. Amazon Town: A Study of Man in the Tropics. New York: Knopf, 1953.

8.        Brito, Fausto; Horta, Carla. “Migrações Internas e a Ocupação da Fronteira Agrícola na Amazônia.” Revista Brasileira de Estudos de População, 1984.Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro.

9.        Silva, Márcio Douglas Rodrigues. “Funk, Brega e Identidades Urbanas na Amazônia Ocidental.” Revista Anthropológicas, UFPE, 2020.

 

 

 

 

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Wagner Soares de Lima é professor, pesquisador e autor com trajetória transdisciplinar nas áreas de administração, segurança pública, subjetividade e educação. Já atuou como oficial da Polícia Militar, técnico em segurança universitária e hoje leciona no Instituto Federal de Rondônia.

 

Sua escrita mistura experiência de vida com pensamento crítico e sensível, transitando entre ensaio, autobiografia, espiritualidade e psicologia. Seus livros exploram temas como vocação, dor emocional, sentido de vida e os impactos humanos das instituições, sempre com o propósito de despertar consciências, curar histórias e reencantar trajetórias.

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