Por que os homens morrem mais?
- Wagner Soares de Lima

- 5 de jul.
- 10 min de leitura
Uma introdução à Ecologia da Violência Masculina

Wagner Soares de Lima
Mestre em Ecologia Humana, Graduado em Segurança Pública Professor no Instituto Federal de Rondônia
Ao observarmos os indicadores de violência no Brasil, encontramos uma realidade desconfortável: os homens são, ao mesmo tempo, a maioria entre as vítimas de mortes violentas, a maioria entre os autores de crimes violentos e a maioria da população carcerária. Esse dado revela uma ambiguidade profunda do fenômeno masculino. O homem aparece como aquele que morre precocemente, mas também como aquele que, em muitos contextos, coloca a vida de outras pessoas em risco.
Essa ambiguidade não pode ser tratada apenas como estatística criminal. Ela exige uma pergunta mais ampla: o que está acontecendo com a formação dos homens? Ou, de modo ainda mais direto: por que tantos homens morrem, matam, adoecem, se acidentam, abandonam vínculos, entram em circuitos de risco ou se tornam incapazes de sustentar a própria vida adulta?
A América Latina e o Caribe ocupam uma posição particularmente grave nesse debate. A região reúne apenas uma pequena parcela da população mundial, mas concentra uma proporção muito elevada dos homicídios globais. Estudos recentes sobre violência na região indicam que, com cerca de 8% da população mundial, a América Latina e o Caribe respondem por aproximadamente um terço dos homicídios do planeta. (Elibrary IMF) No Brasil, o Atlas da Violência 2026 registrou 42.590 homicídios em 2024, com forte concentração da letalidade entre jovens; dos 19.801 jovens assassinados naquele ano, 18.545 eram homens. (Serviços e Informações do Brasil)
Esses números não falam apenas de crime. Falam de saúde, território, família, masculinidade, cultura, Estado, economia ilegal, sofrimento psíquico, pertencimento e morte evitável. É por isso que proponho aqui uma chave de leitura chamada Ecologia da Violência Masculina.
A Ecologia da Violência Masculina não é uma ecologia do crime. O crime é uma das formas finais de visibilidade desse processo, talvez a mais visível para a imprensa, a polícia, a justiça e a estatística penal. Mas antes do crime há formação humana. Há meninos aprendendo, ou não, a lidar com frustração, vergonha, desejo, medo, agressividade, limite, perda e pertencimento. Há famílias que protegem ou ferem. Há culturas que oferecem modelos de homem. Há territórios que ampliam ou reduzem riscos. Há instituições que chegam cedo, chegam tarde ou não chegam.
Por isso, a pergunta deste texto não é apenas: como se forma o jovem criminoso? Essa pergunta importa, mas é insuficiente. Também precisamos compreender como se forma o jovem que será facilmente capturado por adicções; o homem que se tornará pai ausente; o rapaz que, por dependência emocional, ciúme ou vergonha, entrará em conflito com outro jovem agressivo e poderá se tornar vítima; o adulto despreparado para trabalho, conjugalidade, paternidade e vida comunitária; o homem que chegará à emergência depois de um acidente; o sujeito que desaba quando não consegue corresponder ao ideal impossível de força, sucesso e autossuficiência.
Nem tudo vira crime. Às vezes, o resultado é apenas uma falta de aptidão para viver a vida adulta com consistência. Às vezes, aparece como abandono familiar. Às vezes, como dependência. Às vezes, como acidente. Às vezes, como sofrimento silencioso. Às vezes, como ausência paterna que não produz imediatamente um boletim de ocorrência, mas deixa um menino da geração seguinte mais exposto ao risco.
Essa distinção é fundamental. A Ecologia da Violência Masculina fala com a Segurança Pública e com a Justiça Criminal, mas não fala apenas para elas. Fala também com a Saúde Coletiva, a educação, a assistência social, as famílias, as igrejas, os projetos esportivos, as políticas de juventude, o mundo do trabalho e todos os espaços onde meninos são formados antes de se tornarem homens em risco, homens perigosos, homens adoecidos, homens ausentes ou homens mortos.
Compreender não é justificar
Antes de avançar, é preciso estabelecer uma premissa ética: compreender não é justificar. Investigar os caminhos que levam um homem à violência não significa absolvê-lo. O adulto que agride, mata, abandona, ameaça ou destrói vínculos deve responder por seus atos. Responsabilidade individual continua sendo um eixo inegociável.
Mas responsabilizar não nos impede de compreender. Pelo contrário. Uma sociedade que apenas pune chega tarde. Ela age quando a vítima já foi ferida, quando a família já foi destruída, quando o menino já foi recrutado, quando o corpo já chegou ao hospital, quando o crime já aconteceu. A pergunta ecológica tenta chegar antes.
Também é importante dizer que falar da mortalidade masculina não concorre com o enfrentamento do feminicídio ou da violência contra mulheres, crianças e grupos vulneráveis. Essas agendas não se excluem. Em muitos casos, elas se iluminam mutuamente. Entender por que homens matam outros homens ajuda também a compreender por que tantos homens exercem violência dentro de casa, nas relações afetivas e contra pessoas em posição de vulnerabilidade.
Outra premissa: a violência masculina não pode ser explicada apenas por pobreza, nem apenas por biologia, nem apenas por machismo, nem apenas por ausência de polícia, nem apenas por falha do Estado. Todos esses elementos podem importar, mas nenhum deles explica tudo sozinho. A proposta ecológica nasce justamente da recusa das explicações únicas.
A Ecologia Humana como lente
A palavra ecologia costuma ser associada à natureza: rios, florestas, clima, animais, equilíbrio ambiental. Essa associação é correta, mas limitada. Aqui, Ecologia Humana significa o estudo do ser humano em relação com o ambiente total que o circunscreve, o forma e também é transformado por ele.
Esse ambiente total envolve o ambiente externo, composto pelo ambiente natural e pelo ambiente construído; o ambiente interno, formado pela vida psíquica, pelas memórias, medos, desejos, afetos e formas de pensar; e o ambiente simbólico-institucional, onde se formam cultura, linguagem, masculinidade, religião, direito, família, Estado, honra, vergonha e pertencimento.
Em outras palavras, o homem não vive apenas em um bairro, em uma casa ou em uma cidade. Ele vive também dentro de narrativas, expectativas, instituições, imagens de masculinidade, memórias familiares e códigos de honra. Ele é corpo simbolizado e cultura encarnada.
A Ecologia da Violência Masculina aplica essa lente ao fenômeno masculino. Ela parte da ideia de que a violência não nasce em uma dimensão isolada. Ela emerge da interação entre corpo, psique, família, cultura, território, instituições, história e escolhas situadas.
As camadas ecobiopsicossociais
Para organizar essa complexidade, proponho pensar a violência masculina por meio de camadas ecobiopsicossociais. Elas não são gavetas separadas. São dimensões sobrepostas de um mesmo habitat humano.
A camada biológica e evolutiva observa corpo, agressividade, impulsividade, busca de risco, competição, status, regulação emocional e história evolutiva. Falar de biologia não significa dizer que homens são naturalmente violentos. Significa reconhecer que o ser humano possui corpo, energia, instintos, hormônios, excitação, medo, desejo de pertencimento e respostas ao perigo. A biologia fornece matéria viva; a cultura, a família, o território e as instituições disputam o destino dessa matéria.
A camada psíquica e existencial observa vergonha, medo, humilhação, ressentimento, dependência emocional, trauma, ferida masculina e dificuldade de simbolizar a dor. Muitos homens aprendem cedo que resistir importa mais do que sentir. Quando não há linguagem para a tristeza, para a perda e para a frustração, a dor pode aparecer como controle, silêncio, adicção, explosão, fuga ou agressividade.
A camada histórica e social observa desigualdade, raça, classe, território, trabalho, escolaridade, mercados ilegais, vulnerabilidade urbana e exposição diferencial ao risco. A violência não se distribui ao acaso. Há territórios onde meninos crescem mais expostos à morte, ao aliciamento, à ausência de oportunidades, à circulação de armas, ao medo e à normalização do risco.
A camada cultural e simbólica observa masculinidade, honra, vergonha, reputação, arma, moto, corpo, apelido, ostentação, uniforme, grupo, rito e pertencimento. A violência masculina também é linguagem. Em muitos contextos, a agressão comunica força, nome, respeito ou medo. Um menino pode ser seduzido não apenas pelo dinheiro do crime, mas pela promessa de existir aos olhos dos outros.
A camada institucional e política observa escola, saúde, assistência social, polícia, justiça, sistema prisional, socioeducação, políticas públicas e Estado. Instituições podem proteger, cuidar, limitar e reintegrar. Mas também podem falhar, fragmentar trajetórias, chegar tarde ou produzir experiências de humilhação e descrédito.
A camada genealógica e intergeracional observa a transmissão de padrões familiares. A violência masculina não se transmite apenas pelo ato violento. Também se transmite por ausência, silêncio, abandono, alcoolização, medo, dureza afetiva, paternidade frágil e incapacidade de oferecer modelos protetivos à geração seguinte.
Essas camadas ajudam a mostrar que a violência masculina não é apenas um problema de polícia. Também não é apenas um problema de saúde, família, cultura, biologia ou pobreza. Ela é um fenômeno humano integral.
Circuitos: família, sociedade e Estado
Depois de observar as camadas, é preciso perguntar: quem conduz a formação dos meninos dentro dessas dimensões? Aqui entram os circuitos da violência masculina.
O Circuito Afetivo é o domínio da família e dos vínculos primários. É nele que o menino aprende o que significa ser cuidado, pedir ajuda, obedecer, confiar, frustrar-se, reparar, depender e proteger. A família pode ser guardiã, quando oferece afeto, limite, presença e pertencimento. Mas também pode ser indutora, quando ensina abandono, humilhação, medo, explosão, vingança ou silêncio emocional.
O Circuito Simbólico é o domínio da sociedade e do imaginário masculino. Nele entram mídias, músicas, jogos, filmes, redes sociais, religião, esporte, pares, influenciadores, heróis, criminosos admirados e figuras públicas. Não se trata de dizer que uma mídia causa violência de modo direto. A questão é mais profunda: a cultura oferece repertórios de masculinidade. Ela mostra que tipo de homem recebe respeito, medo, desejo ou aplauso.
O Circuito Institucional é o domínio do Estado, das políticas públicas e dos círculos estruturados de convivência. Escola, saúde, assistência, segurança, justiça, socioeducação, sistema prisional, esporte, cultura, trabalho e projetos de disciplina podem guardar ou induzir trajetórias. Também entram aqui as fraternidades guerreiras legítimas: escoteirismo, Exército, Polícia, Bombeiros, artes marciais, projetos esportivos e grupos religiosos estruturados, quando canalizam força, coragem, hierarquia e pertencimento para serviço, proteção e responsabilidade.
Quando família, sociedade e Estado falham ao mesmo tempo, outros agentes ocupam o espaço. A facção, a gangue, a milícia, o grupo armado ou a cultura digital de violência podem oferecer uma fraternidade guerreira ilegítima: nome, irmão, código, prova, proteção, reputação e destino. O problema não é que o menino deseje pertencimento forte. O problema é quando o pertencimento forte disponível cobra como preço a violência, o risco e a morte.
Do agravo ao crime: uma sequência que precisa ser vista antes
A Ecologia da Violência Masculina propõe observar um encadeamento. Primeiro, existe a formação do sujeito masculino em seu habitat total. Depois, surgem formas mais ou menos organizadas de responder ao estresse, à agressividade, ao medo, ao desejo, à vergonha e às frustrações socioeconômicas. Em seguida, podem aparecer agravos: conflitos, acidentes, adicções, rupturas familiares, adoecimento, exposição a riscos e sofrimentos que nem sempre chegam ao sistema penal. Em uma etapa mais grave, pode surgir a violência intencional. Por fim, em determinados casos, essa violência se torna crime tipificado.
A ordem importa. Se começamos apenas pelo crime, chegamos tarde. Se começamos apenas pela tipificação penal, vemos somente a parte do processo que se tornou juridicamente visível. Se começamos apenas pela morte, já estamos diante do desfecho.
Por isso, a proposta não é abandonar a repressão qualificada, nem diminuir a importância da polícia, da justiça ou da responsabilização. O enfrentamento direto ao crime exige investigação, inteligência, ação legal, proteção da vítima e autoridade pública. Mas prevenção não é permissividade. Prevenção é agir antes que a repressão se torne a única linguagem possível.
Para uma política pública que previne, cuida e responsabiliza
A segurança pública brasileira tem sido, historicamente, muito mais reativa do que preventiva. Ela aparece com força quando o conflito já explodiu. A Ecologia da Violência Masculina propõe ampliar esse olhar sem abandonar a necessidade de ordem, lei e autoridade legítima.
Cuidar da saúde física, mental, familiar, social e simbólica de meninos e homens não é um gesto secundário. É estratégia de prevenção da violência. Um menino que aprende a elaborar frustração, que encontra modelos masculinos responsáveis, que possui vínculos protetivos, que acessa escola, esporte, trabalho, cultura, saúde e pertencimento legítimo está menos exposto a ser capturado por formas destrutivas de virilidade.
Isso exige uma política pública multissetorial. Saúde, segurança, educação, assistência social, justiça, cultura, esporte, trabalho, sistema prisional e território precisam deixar de atuar como setores que se encontram apenas depois da tragédia. Cada um tem sua função. A polícia não é posto de saúde. A escola não é delegacia. A assistência social não substitui a família. A família não substitui o Estado. Mas todos precisam compartilhar uma leitura mais ampla do processo.
A pergunta “por que os homens morrem mais?” nos obriga a olhar para além do corpo morto, da ocorrência policial e da sentença penal. Ela nos obriga a olhar para a infância, para a família, para a vergonha, para a honra, para o território, para a cultura, para a ausência de rito, para a economia ilegal, para a fragilidade dos vínculos, para a omissão institucional e para os modelos de masculinidade que oferecemos aos meninos.
Homens morrem mais, sim. Mas não precisam continuar morrendo tanto.
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