Quando amar vira um lugar onde você se perde
- Wagner Soares de Lima

- 24 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Há amores que começam como promessa e terminam como espelho quebrado. Para muita gente, a entrega é tão profunda que vira desaparecimento; um gesto tão absoluto que aquilo que parecia plenitude se transforma num tipo de apagamento silencioso.
O que você sente como amor talvez seja, em parte, o reflexo de um aprendizado antigo, inscrito lá atrás, quando você ainda dependia de alguém para sobreviver e interpretava cuidado e presença como as únicas formas possíveis de ser visto. Quando nos tornamos adultos, essa referência funciona como molde, e é exatamente aí que começamos a amar errado sem perceber.
Não é raro confundir intensidade com afeto, caos com paixão, sofrimento com prova de amor. Quem aprendeu cedo que ser amado significava se ajustar ao outro, se dobrar para caber, tende a repetir esse padrão nas relações, mesmo quando isso custa a própria paz.
Isso não acontece porque você é “dramática”, “ansiosa” ou “emocional demais”, mas porque nossa forma de amar é, muitas vezes, a tradução direta do que internalizamos na infância. Autores como John Bowlby, na Teoria do Apego, e Winnicott, com sua compreensão sobre o ambiente suficientemente bom, já mostravam que nossa relação com o amor adulto é, antes de tudo, uma releitura dos primeiros vínculos que nos formaram.
E quando esse treinamento emocional falha, quase sempre surgem distorções. Chama-se de amor aquilo que, na verdade, é dependência afetiva. Chama-se de destino aquilo que é carência antiga. Chama-se de intensidade aquilo que é desorganização emocional. E, quando tentamos encontrar no outro a salvação para feridas internas mal resolvidas, repetimos o mesmo ciclo: amar demais, sofrer demais, voltar demais.
Esse movimento não é romântico; é um padrão psicológico reconhecido, atravessado por apego ansioso, codependência e, às vezes, por traços borderline que amplificam a experiência emocional de um modo quase avassalador.
Existem pessoas que chegam a acreditar que não nasceram para o amor. Outras, que têm “dedo podre”. Outras ainda acham que são sempre abandonadas porque não foram suficientes. Só que, do ponto de vista clínico, isso raramente é verdade. O que acontece é que amor saudável exige habilidades emocionais que nem sempre aprendemos. Ninguém nos ensinou a reconhecer limites, a diferenciar desejo de dependência, a distinguir estabilidade de monotonia. Por isso relações equilibradas parecem cinzas, enquanto relações instáveis parecem coloridas. É o cérebro acostumado ao excesso pedindo repetição.
E é aqui que muitos se confundem. Aquele amor que reorganiza sua vida inteira, que bagunça sua rotina, que corrói sua calma e ocupa todo o espaço mental, não é amor: é vício. A neurociência mostra que relações intensas ativam os mesmos circuitos de dopamina associados a dependências. E uma relação moldada pela carência não é só emocionalmente instável; é bioquimicamente viciante. Por isso você sempre volta. Por isso parece impossível desapegar. Por isso aquilo que deveria nutrir passa a esgotar.
Mas existe outro tipo de amor. Um amor que nasce quando você se encontra primeiro. Ele não depende do outro como muleta emocional, não exige sacrifício da identidade, não pede que você desapareça para manter alguém por perto. Esse amor aparece quando você reorganiza a casa interna, quando reconhece suas feridas, quando entende de onde vêm seus padrões. E isso exige trabalho, tempo, maturidade e, sobretudo, consciência. É um processo de reconstrução, e não de improviso.
Se você está lendo isso porque alguma postagem nas redes sociais trouxe você até aqui, talvez seja porque uma parte sua já percebeu que não dá mais para viver se apagando nos outros. É hora de olhar para a própria história, para a forma como você foi ensinada a amar e para aquilo que continua repetindo sem querer. O primeiro passo não é culpar o passado, mas compreender o que ele produziu.
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Essa jornada de compreensão emocional pode ser dolorosa, mas não precisa ser solitária. Histórias ajudam porque funcionam como espelhos: enxergamos no outro o que evitamos em nós. Por isso escrevi “Precisei te perder, para poder me encontrar”. Cada personagem representa um modo diferente de se perder nos outros: Lúcia, que se doa até desaparecer; Clara, que se encolhe para não incomodar; Rafael, que tenta se salvar amando demais; Joaquim e Eduardo, cada um com suas marcas e seus abismos.
O livro não oferece respostas rápidas, mas oferece caminhos. Atravessa dor, luto, desorganização, consciência e reconstrução: as sete camadas para que você possa reorganizar sua vida emocional e, enfim, aprender a amar direito. Se este texto fez sentido para você, se tocou em alguma ferida ou acendeu alguma luz, talvez seja hora de aprofundar essa jornada.
Você pode conhecer o livro e ler um trecho gratuito.Ele pode ser o início de uma virada interna que você vem adiando há anos.
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Referências
Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.
Fisher, H. (2016). Anatomy of love: A natural history of mating, marriage, and why we stray. W. W. Norton.
Johnson, S. (2019). Hold me tight: Seven conversations for a lifetime of love. Little, Brown Spark.
Levine, A., & Heller, R. (2010). Attached: The new science of adult attachment and how it can help you find—and keep—love. TarcherPerigee.
Winnicott, D. W. (1965). The maturational processes and the facilitating environment. International Universities Press.
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema therapy: A practitioner’s guide. Guilford Press.
















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