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Wagner Soares de Lima

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Reflexões sobre trabalho, vocação, instituições, afetos e as travessias invisíveis que moldam quem somos. Aqui, escrevo com escuta, compartilho ideias com alma e transformo vivências em pensamento — para quem busca sentido, recomeço ou apenas companhia lúcida no caminho.

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Educador, proteção robusta não é autoritarismo

  • Foto do escritor: Wagner Soares de Lima
    Wagner Soares de Lima
  • há 23 horas
  • 14 min de leitura

Atualizado: há 1 hora

O que gestores escolares, secretarias de Educação e reitorias precisam compreender sobre Security e como construir essa conversa com uma cultura pedagógica orientada pelo cuidado, pelos direitos e pela participação


Por Wagner Soares de Lima Professor do Instituto Federal de Rondônia. Mestre em Ecologia Humana. Graduado em Administração e Segurança Pública. Foi Oficial da Polícia Militar de Alagoas e integrante da Segurança da UFPE.




Há um movimento que considero necessário fazer nos dois sentidos.

Tenho defendido que profissionais oriundos do campo da segurança precisam aprender a entrar na Educação compreendendo que uma escola não é apenas um espaço físico a ser protegido. É um ambiente de aprendizagem, desenvolvimento, convivência, direitos, autonomia, cuidado e formação humana.


Isso exige que Security dialogue com Safety, Care e Safeguarding.

Mas existe uma segunda metade dessa conversa.

A Educação também precisa aprender a compreender melhor o Security.


Porque proteção humana, cultura de paz, acolhimento, convivência e direitos não tornam inexistentes as ameaças intencionais.


Escolas e universidades podem enfrentar invasões, agressões, furtos, ameaças, sabotagem, violência dirigida, ataques planejados, incidentes digitais, acesso indevido a instalações e outras situações para as quais boa vontade pedagógica não constitui resposta suficiente.


Nesses casos, existe um campo técnico construído justamente para compreender como agentes intencionais produzem dano e como organizações podem prevenir, detectar, retardar, responder e recuperar-se dessas situações.

Esse campo é o Security.


E talvez uma das tarefas mais importantes da gestão educacional contemporânea seja aprender a incorporá-lo sem transformar proteção em autoritarismo.


O gestor escolar costuma perceber isso antes


Professores podem passar grande parte de seu trabalho concentrados na sala de aula.

Profissionais pedagógicos observam aprendizagem, desenvolvimento, currículo e relações.


Já o diretor ou gestor escolar está em uma posição diferente.

Ele recebe a ligação quando alguém ameaça um professor.

É informado quando uma pessoa tenta entrar onde não deveria.

Descobre que determinado portão ficou aberto.

Precisa decidir o que fazer diante de uma ameaça em rede social.

É chamado quando um estudante entra em crise.

Responde às famílias.

Conversa com segurança pública.

Aciona manutenção.

Negocia com a equipe de TI.

Precisa saber se há imagens disponíveis.

Descobre que ninguém sabe exatamente quem possui determinada chave.

É perguntado sobre um protocolo que talvez nem exista.


Por isso, muitos gestores escolares compreendem intuitivamente algo que nem sempre aparece com a mesma nitidez no debate pedagógico: há acontecimentos cuja prevenção exige competências específicas de segurança.


Reconhecer isso não torna ninguém menos educador.

Torna a gestão mais responsável.

 

Uma nota sobre os termos: Segurança, Proteção e Cuidado

Antes de avançar, é importante explicar uma escolha terminológica deste texto. Parte da literatura internacional utiliza palavras diferentes para distinguir funções que, em português, costumam ser reunidas sob os termos segurança e proteção. Security, safety, safeguarding e care, por exemplo, não são conceitos equivalentes, embora frequentemente apareçam traduzidos de maneira semelhante. Manter ocasionalmente os termos em inglês será útil justamente quando precisarmos tornar essas diferenças conceituais mais visíveis.


Para facilitar a leitura e, ao mesmo tempo, construir uma linguagem mais adequada ao campo educacional, adotarei aqui uma convenção em português baseada em três ideias centrais: Segurança, Proteção e Cuidado. Segurança será utilizada principalmente quando estivermos tratando de ameaças intencionais, violência, gestão de riscos, controle de acesso, inteligência, prevenção e resposta a ações deliberadas, o universo mais próximo de security.


Proteção abrangerá as condições e capacidades destinadas a evitar danos, preservar direitos, reduzir vulnerabilidades e organizar respostas institucionais, aproximando-se, conforme o contexto, das ideias de safety e safeguarding. Cuidado corresponderá à dimensão relacional de care: acolhimento, escuta, pertencimento, confiança, desenvolvimento e atenção às necessidades das pessoas.


Há ainda duas palavras importantes: Vigilância e Defesa; que não serão abandonadas, mas empregadas de maneira mais restrita. Elas são perfeitamente legítimas quando tratamos de funções específicas de segurança: videomonitoramento, observação, inteligência, proteção diante de ameaças ou defesa frente a uma agressão. Entretanto, não considero adequado utilizá-las como conceitos organizadores do fazer pedagógico. A Educação pode precisar de vigilância e defesa em determinadas circunstâncias; sua relação cotidiana com estudantes, porém, deve ser organizada prioritariamente pela Segurança, pela Proteção e pelo Cuidado.


Essa distinção é importante porque não se trata apenas de escolher palavras diferentes. Cada palavra carrega uma determinada forma de enxergar a pessoa que está diante da instituição. E construir uma Segurança da Educação exige justamente aprender a combinar essas diferentes formas de proteção sem permitir que uma delas colonize todas as demais.

 

O que é Security e por que a Educação precisa conhecê-lo

Em termos simples, Security trata especialmente da proteção diante de ações intencionais capazes de produzir dano.

Isso o diferencia, embora não o separe completamente, de Safety, mais relacionado a perigos, acidentes, falhas e condições potencialmente danosas que não necessariamente envolvem intenção humana deliberada.


Uma escada sem manutenção é principalmente um problema de safety.

Uma pessoa tentando deliberadamente ultrapassar um acesso restrito introduz uma questão de security.

Um curto-circuito pode provocar uma emergência de safety.

Alguém que deliberadamente provoca um incêndio produz também um problema de security.

Na realidade institucional, naturalmente, essas fronteiras se comunicam.

O ponto importante para o educador é outro:


Security possui um raciocínio próprio.

Ele pergunta, por exemplo:

  • o que precisa ser protegido?

  • contra quais ameaças?

  • quais vulnerabilidades poderiam ser exploradas?

  • quais seriam as consequências?

  • que barreiras existem?

  • como detectar uma situação precocemente?

  • como ganhar tempo?

  • quem deve ser alertado?

  • quem possui autoridade para responder?

  • como a organização continua funcionando depois do incidente?

Isso não é paranoia.

É uma forma profissional de pensar proteção.


Gestão de riscos não significa imaginar que todos são perigosos

Talvez aqui exista uma das incompreensões mais frequentes.

Quando um profissional de segurança fala em ameaça, vulnerabilidade, probabilidade, consequência e controle, um educador pode interpretar aquela linguagem como expressão de uma visão desconfiada das pessoas.

Mas gestão de riscos não exige assumir que todos são ameaças.

Ela exige reconhecer que determinados acontecimentos são possíveis e que as consequências de alguns deles justificam preparação.


A ISO 31000, um dos principais referenciais internacionais de gestão de riscos, estabelece que o gerenciamento precisa ser integrado à governança, adaptado ao contexto e relacionado aos objetivos e à cultura da própria organização. Ou seja: uma boa gestão de riscos aplicada à Educação não deveria importar controles indiscriminadamente.


Ela deveria perguntar:

qual é o risco, qual é o contexto educacional e qual tratamento é proporcional?


Essa última palavra é decisiva.

Segurança robusta não significa segurança ostensiva


Podemos cometer um erro conceitual quando imaginamos que uma solução de segurança é tanto mais forte quanto mais visível, rígida ou incômoda ela for.

Não necessariamente.

Em muitos casos, ocorre exatamente o contrário.


Uma arquitetura de proteção sofisticada pode trabalhar com camadas discretas:

  • videomonitoramento adequadamente projetado;

  • controle eletrônico de acesso;

  • credenciais;

  • sensores;

  • sistemas de comunicação;

  • inteligência de vídeo;

  • protocolos;

  • profissionais treinados;

  • gestão de visitantes;

  • monitoramento de eventos;

  • redundância;

  • comunicação de emergência;

  • avaliação de ameaças;

  • integração com redes externas.


O estudante não precisa vivenciar todas essas camadas como obstáculos permanentes.

Uma barreira pode permanecer aberta no fluxo ordinário e atuar apenas diante de uma exceção.

Uma tecnologia pode gerar um alerta silencioso para a equipe responsável sem interromper toda a comunidade.

Um sistema pode aumentar capacidade de detecção sem transformar cada entrada em uma abordagem policial.

O objetivo não é fazer a segurança desaparecer tecnicamente.


É fazer com que sua presença seja proporcional ao risco e compatível com a vida educacional.

A própria ASIS International, uma das principais organizações profissionais do campo de segurança, publicou em 2025 um padrão específico para segurança escolar que integra avaliação de riscos, proteção física, avaliação e gestão de ameaças comportamentais e planejamento de emergências. O documento destaca liderança, colaboração multidisciplinar, participação dos atores e alinhamento das medidas de proteção com a missão educacional.


Isso é muito diferente de simplesmente “transformar a escola em uma fortaleza”.

E aqui a gestão educacional precisa assumir seu papel

O profissional de segurança conhece Security.

O engenheiro conhece sua especialidade.

A TI conhece redes, sistemas e dados.

Os profissionais pedagógicos conhecem Educação.

Nenhum deles deveria governar isoladamente toda a segurança de uma instituição educacional.

Essa responsabilidade pertence à governança institucional.


Na escola, o diretor possui papel central nessa articulação.

Mas, em grandes redes, existe um segundo nível ainda mais importante.

Secretarias, diretorias e reitorias precisam construir a arquitetura

Há problemas que não deveriam ser deixados para cada escola resolver individualmente.

Uma secretaria de Educação, uma pró-reitoria, uma diretoria sistêmica ou administração central precisa fornecer estruturas comuns.


Isso inclui, por exemplo:

  • governança;

  • diretrizes;

  • critérios de avaliação;

  • classificação de incidentes;

  • protocolos mínimos;

  • responsabilidades;

  • padrões tecnológicos;

  • parâmetros para controle de acesso;

  • requisitos de videomonitoramento;

  • políticas de proteção de dados;

  • formação;

  • canais de comunicação;

  • articulação com segurança pública;

  • integração com saúde e assistência;

  • procedimentos de emergência;

  • processos de contratação;

  • mecanismos de revisão.


A Lei nº 14.811/2024 é particularmente interessante porque não trata a violência em estabelecimentos educacionais simplesmente como problema interno de cada escola. A norma atribui responsabilidade ao Poder Executivo e prevê cooperação federativa na implementação de medidas de prevenção e combate à violência contra crianças e adolescentes.


Há, portanto, uma dimensão sistêmica.

O diretor não deveria precisar inventar sozinho a segurança da sua escola.


A unidade precisa possuir autonomia para interpretar sua realidade, mas deve contar com uma arquitetura institucional que lhe forneça conhecimento, recursos, critérios e rede de apoio.

Um sistema educacional também precisa possuir inteligência de segurança


Uma secretaria ou reitoria madura deveria ser capaz de responder:

  • Quais tipos de incidentes acontecem em nossas unidades?

  • Onde estão nossas maiores vulnerabilidades?

  • Temos padrões mínimos de segurança física?

  • Como avaliamos necessidade de câmeras?

  • Quem pode acessar essas imagens?

  • Quais unidades possuem maior exposição?

  • Como tratamos ameaças dirigidas?

  • Quem analisa informações que chegam pelas escolas?

  • Existe protocolo quando uma pessoa ameaça um estudante ou servidor?

  • As escolas sabem quando acionar polícia, saúde, assistência ou Conselho Tutelar?

  • As equipes sabem o que fazer diante de uma ameaça digital?

  • Quais unidades precisam de avaliações especializadas?

  • Há planejamento de continuidade?

  • Como aprendemos institucionalmente depois de um incidente?


Isso não significa criar uma “polícia da Educação”.

Significa desenvolver capacidade institucional de governar riscos que já existem.

A resistência de parte dos educadores não deve ser ridicularizada


Chegamos, então, à parte mais delicada. Dentro da Educação brasileira existe uma tradição importante que enfatiza relações democráticas, participação, autonomia, direitos, diálogo, inclusão, cuidado e crítica às formas autoritárias de organização.


Vou chamar esse conjunto, reconhecendo evidentemente sua diversidade, de tradições pedagógicas crítico-humanistas e democráticas. Não acho produtivo tratá-las pejorativamente como educadores “progressistas”, “ideológicos” ou “resistentes à segurança”.


Há razões históricas e pedagógicas para a preocupação.

A escola já utilizou disciplina, vigilância e autoridade de maneiras humilhantes.

Instituições podem reproduzir desigualdades.

Determinados grupos podem ser desproporcionalmente submetidos a suspeição.

Sistemas tecnológicos podem invadir privacidade.

Procedimentos desenhados sem cuidado podem excluir.

Uma política de segurança pode ser utilizada para controlar comportamentos que não constituem problemas de segurança.


Essas preocupações não precisam ser derrotadas.

Precisam participar do desenho do sistema.


A UNESCO, por exemplo, trata ambientes educacionais seguros juntamente com inclusão, relações respeitosas, mecanismos confiáveis de comunicação, participação e apoio aos estudantes. Segurança, nesse paradigma, não é apresentada como alternativa aos direitos e ao bem-estar, mas como uma das condições para que crianças e jovens possam aprender e se desenvolver.


A conversa mais produtiva começa justamente aí.

Não chegue dizendo: “vocês precisam de mais controle”


Para gestores escolares, secretários, pró-reitores e dirigentes, eu faria uma recomendação muito objetiva.

Não apresente primeiro a solução de segurança. Apresente primeiro o problema de proteção.


Há uma enorme diferença entre dizer:

“Precisamos instalar reconhecimento facial.”

e perguntar:

“Temos um problema recorrente de ingresso de pessoas não autorizadas. Como podemos aumentar nossa capacidade de identificar essas situações preservando o fluxo, a privacidade e a experiência cotidiana da comunidade?”


Também é diferente dizer:

“Precisamos vigiar melhor os alunos.”

e dizer:

“Temos lugares e momentos em que situações de violência acontecem sem que adultos consigam percebê-las precocemente. Como podemos melhorar supervisão, desenho dos espaços, canais de ajuda e capacidade de detecção?”


A primeira formulação começa pela tecnologia.

A segunda começa pelo problema institucional.

Isso muda completamente a conversa.

Não peça adesão pela via do medo

Outro erro frequente é tentar conquistar os educadores mostrando imagens de ataques ou utilizando continuamente acontecimentos extremos.

O risco existe e não deve ser minimizado.

Mas uma política construída essencialmente sobre medo tende a produzir uma discussão pobre:

“Depois não diga que eu não avisei.”

Gestão de riscos não deveria funcionar assim.


Um gestor precisa conseguir explicar:

  • qual problema foi identificado;

  • qual evidência existe;

  • qual a consequência possível;

  • qual o grau de incerteza;

  • que alternativas foram consideradas;

  • qual controle está sendo proposto;

  • que benefício ele oferece;

  • que efeitos adversos pode produzir;

  • como será avaliado.


Isso é muito mais persuasivo para uma comunidade acadêmica e educacional do que tentar vencer uma discussão pela dramaticidade.

Mostre que segurança também protege aquilo que o educador valoriza

Talvez essa seja a ponte mais importante.

Não diga apenas que uma medida protege o prédio.

Mostre que ela protege a continuidade da aula.

Não diga apenas que um protocolo organiza resposta.

Mostre que ele reduz improvisação exatamente quando estudantes estão mais vulneráveis.

Não apresente comunicação de emergência apenas como comando operacional.

Mostre que informação clara reduz ansiedade.

Não trate controle de acesso somente como barreira.

Explique que ele permite saber quem está dentro de um espaço que acolhe crianças e adolescentes.

Não fale apenas em videomonitoramento.

Discuta capacidade de esclarecer acontecimentos, detectar situações, responder mais rapidamente e proteger pessoas — ao mesmo tempo em que se estabelecem regras de privacidade e governança.


A pergunta precisa deixar de ser:

“Segurança ou pedagogia?”


E passar a ser:

“Que proteção permite que nossa proposta pedagógica continue existindo?”

Mas o diálogo também precisa impor limites


Construir participação não significa que toda medida necessária dependerá de unanimidade.

Gestores possuem responsabilidades.

Existem exigências legais.

Existem riscos cuja gravidade exige tratamento.

Existem áreas técnicas em que decisões precisam considerar conhecimento especializado.

Uma instalação elétrica não se torna segura por votação.

Uma ameaça criminal não deixa de existir porque é desconfortável falar sobre ela.

Um acesso criticamente vulnerável não deveria permanecer assim apenas porque sua correção gera resistência inicial.

Gestão democrática não significa abdicação da responsabilidade gerencial.

O que ela exige é outra coisa: legitimidade, transparência, proporcionalidade, escuta e possibilidade de revisão.

A UNESCO defende precisamente abordagens que combinam políticas claras, participação, mecanismos acessíveis de comunicação e atuação coordenada de diferentes atores. (UNESCO)



Cinco princípios para conversar sobre Security com educadores

Eu resumiria a postura gerencial desta forma:


1. Comece pelo bem que queremos proteger.Aprendizagem, pessoas, convivência, direitos e continuidade vêm antes do equipamento.


2. Apresente o risco antes do controle.A comunidade precisa compreender qual problema a medida pretende resolver.


3. Demonstre proporcionalidade.Nem toda vulnerabilidade exige a medida mais restritiva disponível.


4. Coloque direitos dentro do projeto, e não contra o projeto.Privacidade, acessibilidade, dignidade e inclusão são requisitos de uma boa solução de segurança.


5. Avalie resultados e efeitos indesejados.Uma medida não deve ser considerada boa apenas porque foi instalada.

Nesse modelo, o profissional de segurança participa da construção.


O educador também.

Mas a governança permanece responsável por integrar conhecimentos e tomar decisões.

O que o educador precisa aprender sobre Security

Também existe, entretanto, um aprendizado que não pode ser exigido apenas dos gestores.

Educadores precisam desenvolver uma alfabetização básica sobre segurança.

Não para virar especialistas.


Mas para compreender conceitos como:

  • ameaça — algo ou alguém com potencial de produzir dano;

  • vulnerabilidade — uma condição que pode ser explorada ou contribuir para determinada ocorrência;

  • risco — relação entre incerteza, exposição e consequências para objetivos;

  • barreira ou controle — medida destinada a prevenir, detectar, retardar ou reduzir consequências;

  • detecção — capacidade de perceber precocemente uma situação relevante;

  • resposta — ações desenvolvidas quando determinado evento ocorre;

  • continuidade — capacidade de preservar ou recuperar as atividades essenciais.


Essa alfabetização permite uma discussão muito mais madura.

Uma equipe pedagógica passa a conseguir questionar um projeto de segurança tecnicamente:

  • “Esse controle é proporcional?”

  • “Qual risco ele reduz?”

  • “Que alternativa menos intrusiva foi analisada?”

  • “Como será garantida a privacidade?”

  • “Quem responde quando o sistema gerar um alerta?”


Isso é muito mais produtivo do que uma rejeição genérica à palavra segurança.


Porque o extremo oposto também existe

Assim como existem políticas de segurança excessivamente controladoras, também existe o risco de romantizar ambientes educacionais.

Pertencimento não impede sozinho uma invasão.

Cultura de paz não extingue criminalidade.

Uma boa relação professor-aluno não substitui um projeto de prevenção contra incêndio.

Acolhimento não substitui controle de acesso onde ele é necessário.

Diálogo não é resposta suficiente para todos os tipos de violência.

E uma ameaça grave não deixa de ser grave porque ocorreu dentro de uma escola.

Reconhecer isso não significa abandonar uma Educação humanista.

Significa protegê-la de uma ingenuidade que também pode produzir danos.


Security e Care precisam chegar à mesma mesa

É por isso que tenho insistido nas quatro dimensões:

  • Security pergunta como proteger contra ameaças intencionais.

  • Safety pergunta como evitar danos produzidos por perigos, acidentes e falhas.

  • Care pergunta como preservar relações, necessidades humanas, confiança e desenvolvimento.

  • Safeguarding pergunta como a instituição previne, identifica e responde a violência, abuso, negligência, exploração e outras situações de vulnerabilidade, inclusive aquelas produzidas dentro de suas próprias relações.


Nenhuma delas resolve sozinha o problema da proteção educacional.

Esse é precisamente o ponto.


Uma responsabilidade especial das secretarias e reitorias

Quanto maior a organização, menos aceitável é depender apenas da iniciativa individual de bons diretores.

Sistemas educacionais precisam transformar proteção em capacidade organizacional.


Isso significa combinar:

  • política;

  • governança;

  • dados;

  • formação;

  • especialistas;

  • tecnologia;

  • infraestrutura;

  • procedimentos;

  • redes externas;

  • recursos;

  • monitoramento;

  • aprendizagem institucional.


O padrão de segurança escolar da ASIS também enfatiza liderança, alocação de recursos, colaboração multidisciplinar, treinamento, comunicação, documentação e melhoria contínua, reforçando que um programa de segurança não é simplesmente um conjunto de equipamentos. (ASIS International)

É exatamente aí que secretarias de Educação, diretorias sistêmicas e reitorias tornam-se decisivas.

Elas podem impedir dois erros simultaneamente:

que cada escola improvise sua própria segurança;

e que uma solução padronizada ignore completamente as diferenças entre as unidades.


Precisamos construir uma terceira posição

Entre uma escola militarizada e uma escola desprotegida existe um território enorme.

É nele que precisamos trabalhar.


Uma instituição pode possuir excelente controle de acesso e continuar acolhedora.

  • Pode possuir videomonitoramento e governança rigorosa de privacidade.

  • Pode treinar resposta a emergências sem produzir pânico cotidiano.

  • Pode trabalhar com segurança pública sem transferir a ela sua governança pedagógica.

  • Pode estabelecer autoridade sem autoritarismo.

  • Pode identificar ameaças sem transformar toda diferença em suspeição.

  • Pode ter protocolos e continuar sendo humana.

  • Pode ser simultaneamente aberta à aprendizagem e difícil de vulnerabilizar.


Essa talvez seja a síntese que falta em parte do debate educacional brasileiro.

Minha provocação para gestores educacionais

Se você ocupa uma direção de escola, uma secretaria de Educação, uma pró-reitoria, uma diretoria administrativa ou qualquer posição de governança educacional, talvez sua tarefa não seja escolher entre “o lado da pedagogia” e “o lado da segurança”.

Sua tarefa é mais complexa.

Você precisa construir condições para que ambos consigam trabalhar.


Ao profissional de Security, será necessário dizer:

“Aqui você precisará compreender nossa cultura, nossos direitos e nossa missão.”


Ao educador de orientação crítico-humanista, democrática e centrada em direitos, será necessário dizer:

“Esses valores são justamente parte daquilo que queremos proteger. Mas protegê-los também exige capacidade para lidar tecnicamente com ameaças que não desaparecem porque discordamos da lógica da violência.”


Quando as duas frases cabem na mesma política institucional, começamos a sair da polarização.

E entramos no terreno da Segurança da Educação.



Em uma frase:

Uma Educação humanizada não precisa escolher entre liberdade e proteção; precisa desenvolver competência para construir proteção suficiente para que a liberdade educacional possa existir com segurança.

Referências

  1. ASIS INTERNATIONAL. School Security Standard. Alexandria, VA: ASIS International, 2025. Estrutura de referência para programas de segurança escolar, incluindo avaliação de riscos, proteção física, gestão de ameaças comportamentais, operações de emergência, governança e colaboração multidisciplinar. (ASIS International)

  2. BRASIL. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Institui medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais ou similares. (Planalto)

  3. ISO — INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 31000:2018 — Risk management: Guidelines. Geneva: ISO, 2018.

  4. UNESCO. Safe to Learn and Thrive: Ending Violence in and through Education. Paris: UNESCO, 2024. A abordagem associa prevenção da violência a ambientes seguros, inclusivos, acolhedores e favoráveis à aprendizagem. (UNESCO)

  5. UNESCO. What you need to know about ending violence in and through education. Paris: UNESCO. Destaca políticas claras, mecanismos confiáveis de comunicação, participação dos estudantes, articulação comunitária e ambientes de aprendizagem seguros e inclusivos. (UNESCO)



Para quem quiser aprofundar

Se esta discussão despertou seu interesse, há também uma possibilidade de aprofundamento formativo. Participei da construção do conteúdo do curso Segurança em Ambientes Educacionais, desenvolvido a partir de muitas das ideias discutidas neste artigo.


O curso é ofertado em parceria com a UniVero, responsável por sua divulgação e comercialização, e apresenta uma abordagem mais sistemática e aplicada sobre segurança, proteção, gestão, infraestrutura, tecnologia e outros componentes dos ambientes educacionais.


É uma formação que indico especialmente para quem deseja compreender o tema com maior profundidade e desenvolver competências para aplicá-lo em instituições de ensino.



 




Talvez você se interesse pelos outros textos da série:


O segundo texto faz o movimento contrário.

Ele parte do reconhecimento de que profissionais de Security possuem competências que a Educação efetivamente necessita.

·       Análise de ameaças.

·       Gestão de riscos.

·       Controle de acesso.

·       Videomonitoramento.

·       Inteligência.

·       Segurança física.

·       Planejamento de emergências.

·       Detecção e resposta.

·       O problema não está nessas competências.

 

Está em imaginar que elas podem entrar no ambiente educacional sem aprender a dialogar com sua cultura. Minha provocação nesse artigo é que, além de Security e Safety, quem pretende trabalhar seriamente com proteção educacional precisa incorporar duas outras dimensões: Care e Safeguarding.

Em nossa linguagem, poderíamos pensar essa articulação principalmente como Segurança, Proteção e Cuidado. Porque o profissional tecnicamente competente também precisa compreender pertencimento, escuta, direitos, relações, confiança, desenvolvimento e proteção integral.

 

Se sua pergunta é:

“Por que algumas soluções tecnicamente corretas encontram tanta resistência dentro da Educação?”

este provavelmente é o seu ponto de entrada.

 

→ Leia: Profissional de Security: Safety ainda não basta para entrar na Educação

Este foi o ponto de partida. Nele, converso principalmente com educadores, gestores e profissionais das instituições de ensino.


A tese é que a Educação precisa assumir intelectualmente a responsabilidade por sua própria proteção.

Isso não significa prescindir de policiais, profissionais de segurança, engenheiros, arquitetos, especialistas em tecnologia, profissionais de saúde ou outros conhecimentos especializados.

Significa que a missão educacional precisa orientar a maneira como essas competências são articuladas.

Uma escola não é um shopping.

Uma universidade não é uma fábrica.

Por isso, sua segurança não pode ser simplesmente importada de outros setores.

 

Se sua pergunta é:

“Como proteger uma instituição sem transformar segurança em controle da experiência educacional?”

comece por este texto.

 

→ Leia: Segurança da Educação: por que proteger não é controlar



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Wagner Soares de Lima é professor, pesquisador e autor com trajetória transdisciplinar nas áreas de administração, segurança pública, subjetividade e educação. Já atuou como oficial da Polícia Militar, técnico em segurança universitária e hoje leciona no Instituto Federal de Rondônia.

 

Sua escrita mistura experiência de vida com pensamento crítico e sensível, transitando entre ensaio, autobiografia, espiritualidade e psicologia. Seus livros exploram temas como vocação, dor emocional, sentido de vida e os impactos humanos das instituições, sempre com o propósito de despertar consciências, curar histórias e reencantar trajetórias.

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